Dinheiro do bem

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Conheça os investimentos de impacto social com os quais empresários querem transformar a realidade sem abrir mão do lucro.

Por Patrícia ALVES

Em 2008, aos 31 anos, o paulista Daniel Izzo estava em uma posição privilegiada. Apesar da pouca idade, já havia passado uma década no departamento de marketing da Johnson & Johnson (J&J), gerindo marcas líderes de mercado como a do curativo Band-Aid e a do protetor solar Sundown. O futuro parecia garantido. Bastava trabalhar de acordo com as normas da companhia e administrar a carreira, até a hora da aposentadoria. No entanto, naquele momento, os valores do administrador de empresas entraram em crise. Nada contra o lucro, mas Izzo se convenceu de que os negócios deveriam ter um objetivo maior do que simplesmente proporcionar retorno financeiro para quem já tem bastante dinheiro.

No ano seguinte, ele deixaria a J&J e fundaria, ao lado dos sócios Antonio Ermírio de Moraes Neto e Kelly Michael, a Vox Capital, empresa de capital de risco voltada exclusivamente para investimentos de impacto. No caso deles, impacto social. “Nossa missão é investir em empresas em seus estágios iniciais e cujos produtos e serviços sirvam à população de baixa renda”, diz Izzo. Não é a única condição. “Para receber capital, os empreendedores têm de ser capacitados e estar motivados pela causa.” A “causa” é algo recente, surgida há menos de uma década. Não confunda investimento de impacto com responsabilidade social nem com sustentabilidade, embora esses assuntos estejam intimamente ligados.

Responsabilidade social e sustentabilidade estão ligadas à ideia de ter lucro sem danificar o meio ambiente nem esfarrapar as relações sociais. O investimento de impacto vai além. Um gestor de investimentos de impacto destina recursos a empresas que geram benefícios sociais e que, além disso, são financeiramente rentáveis. Nada a ver com filantropia. “Diferentemente da doação filantrópica, o investimento de impacto permite que os recursos sejam reinvestidos em outro empreendimento no futuro”, diz Rob Parkinson, coordenador da subsidiária brasileira do Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande), rede global de organizações que investem dinheiro e experiência para impulsionar o empreendedorismo em mercados emergentes.

Os primeiros fundos do tipo foram lançados nos Estados Unidos, no começo da década passada, e reproduzidos na Índia e no México. De acordo com o Ande, há pouco mais de 200 fundos em atividade no mundo. O potencial é gigantesco. De acordo com o relatório “Impact Investments, An Emerging Asset Class”, do banco americano JP Morgan em parceria com a Fundação Rockefeller, os investimentos de impacto devem receber até US$ 1 trilhão nos próximos dez anos e possibilidade de gerar lucros de mais de US$ 660 bilhões nas áreas de habitação, saúde, educação, serviços financeiros e saneamento. A Vox é pioneira nesse tipo de iniciativa por aqui. Ela já fez seis investimentos, em um total de R$ 6 milhões, e está preparando uma nova rodada de aportes.

Entre os que receberam o capital está Alessandra França. A bela jovem de 26 anos é fundadora e presidente do Banco Pérola, instituição financeira que concede empréstimos para jovens que tenham projetos de empreendimentos pessoais em qualquer área de interesse. Em dezembro de 2011, a empresa de Izzo fez uma aporte de R$ 100 mil no banco, o que vai ajudar o Pérola a atingir seu objetivo de ter 300 clientes até o fim de 2012. “Começamos há pouco mais de dois anos”, diz Alessandra. “No primeiro ano, conquistamos 28 clientes, no segundo mais 102 e, apenas nos seis primeiros meses de 2012, já fechamos mais 100 contratos.” Segundo ela, empresas como a Vox são essenciais para quem faz projetos sociais.

“Esses fundos têm um olhar diferenciado dos tradicionais e os negócios que buscam um retorno além do financeiro não cresceriam sem eles”, afirma. Além do Banco Pérola, o Plano CDE, Balcão de Empregos, CDI Lan, Sautil e Bille Empreendimento Imobiliário também receberam investimentos da gestora, que pretende fazer mais três negócios até o fim do ano e dez aportes até 2015, cada um deles com valor médio entre R$ 3 milhões e R$ 4 milhões, podendo até chegar a R$ 15 milhões, teto de aplicações do fundo. “Existe muito espaço para que o investimento de impacto cresça no mundo e o Brasil é um dos países mais promissores”, diz Carmen Correa, responsável pela área de Mercados Inclusivos da Avina, fundação internacional especializada em desenvolvimento sustentável.

Apesar dos avanços recentes, o País ainda tem uma distribuição de renda muito desigual. “Para o investidor acostumado a buscar apenas retorno financeiro, o investimento de impacto oferece a possibilidade de também contribuir para melhorar a qualidade de vida de milhões de brasileiros”, afirma Parkinson. Para Izzo, da Vox, o impacto deve ser uma intenção do negócio, incluído nas métricas do sucesso e buscado ativamente pelos gestores. Essa mensuração, no entanto, não é tão simples assim, já que é preciso avaliar a transformação, para melhor, que o acesso àquele negócio pode causar na vida das pessoas. “Indivíduos e instituições estão cada vez mais à procura de maneiras de alinhar seus valores e investimentos”, diz Izzo.

Fonte: Revista Isto É Dinheiro – ed 769


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